Hamburg / Berlin & Potsdam

Mais uma viagem de trem, mas essa foi curta só uma hora e quarenta minutos. Viajar de trem é muito prático, não tem que passar por revistas, desmanchar a bagagem de mão, tirar sapatos, etc. Além do fato de que os trens não atrasam e se atrasam é por apenas alguns minutos. Peguei meu trem às 10h05 na Hamburg Hauptbahnhof (Hbf), estava vazio, sentei numa poltrona com mesa na frente, muito bom! Pena que não tinha tomada, não pude recarregar o notebook.

Estava um pouco apreensivo com a minha chega à Berlin, não sabia se eu iria achar o Hartmut, amigo de uma amiga da minha mãe, que gentilmente aceitou me hospedar por uns dias. Mas tudo deu certo, desci do trem e logo descobri quem devia ser ele. Ele é um senhor muito simpático! Para chegar na casa dele pegamos o S-Bahn até a estação de Wannsee, a última antes do inicio da zona C do metrô e começo de Potsdam. Da estação até a casa dele fomos de carro, fazia semanas que não andava de carro! Acho que a última vez foi um taxi em portugal.

Deixei minhas malas na casa dele e fomos almoçar, ele me levou num restaurante com comida típica alemã na beira do Wannsee. O restaurante fica numa antiga casa de madeira russa, de 1800 e alguma coisa (ainda não é dos russos da DDR). Comi uma carne enrolada, dentro tinha bacon, brocolis, e mais alguma coisa. Estava muito bom!

Depois do almoço fomos até Potsdam, que é apenas alguns minutos aqui da casa do Hartmut. Potsdam é a cidade vizinha de Berlin mais famosa, nela aconteceram várias das reuniões do pós-guerra. Ela também é famosa pelos vários castelos, que os diversos reis prussianos construiram. Visitamos o jardim dos vários castelos, e passamos na frente do castelo de Sanssouci. Num dos cantos do castelo está o túmulo do rei, junto com oito ou nove túmulos dos cachorros do rei! Isso sim é que é amar os seus cachorros!

O jardim, que na real é um grande parque, deve ser lindo no verão, mas como é inverno, a maioria das árvores estava sem folhas e também várias esculturas estavam protegidas da neve, com verdadeiras casas de madeira por cima delas! O parque fica há duas quadras do centro antigo da cidade. Caminhamos até lá, o Hartmut ficou num café, pois estava cansado. Ah, antes disso eu levei um susto com ele. Ele tropeçou na calçada e caiu, ainda bem que era areia e grama. Ele riu do incidente e eu fiquei bem nervoso!

Na Altstadt (cidade velha) ainda há várias casas do tempo dos reis, várias foram reconstruidas e restauradas, mas a grande parte ainda é antiga mesmo. Caminhei um pouco pela rua principal, observando o comércio e as casas. Já estava escuro, então voltamos para casa. Para completar o dia, saímos mais tarde para jantar, fomos num restaurante italiano. Vi que a minha estada por aqui será ótima!

HafenCity e Speicherstadt

Como é segunda e nenhum museu na alemanha abre nesse dia, resolvi fazer outro passeio a pé. Ainda não tinha ido até as ilhas da Speicherstadt, que ficam na frente do centro. Speicherstadt é um local cheio de armazens, onde todos os navios descarregavam suas cargas. Até hoje vários dos prédios abrigam importadoras e exportadoras, acho que existe alguma lei relacionada ao imposto para armazenar as mercadorias ali, pelo que eu entendi não se paga nada de imposto. Antigamente se estocava café, chá, cacáu, etc.

Começei meu caminho pela HafenCity, ou o que um dia será a HafenCity, por que eu só passei por canteiros de obras! E esses alemães sabem construir, não importa o terreno, as cheias do rio, o frio, etc. Eles conseguem fazer o que eles projetaram e numa velocidade impressionante. Em 10 anos eles querem acabar todo esse bairro novo, com o teatro da filarmônica, uma universidade nova, uma linha de metrô nova e sei lá quantos metros quadrados de área construida. Alguns prédios e praças já estão prontos. Um dos prédios prontos é a sede da SAP de Hamburg.  Não consegui descobrir quem é o arquiteto responsável pelo urbanismo da área, mas as praças e futuras marinas são bem interessantes.

Alguns dos prédios novos são bons, outros nem tanto. O prédio da filarmônica vai ser impressionante, o projeto é do Herzog & de Meuron, mas por enquanto só há as antigas paredes do armazem que havia no local. Para manter as parades no local, eles contruiram uma imensa estrutura de ferro por fora das paredes, demoliram absolutamente tudo o que havia dentro e agora estão construindo um prédio totalmente novo, mas que vai incorporar essas paredes. Dúvido que no Brasil isso daria certo…

Almoçei num restaurante na beira do rio, sentado na janela aproveitando o sol, comi um filé com fritas! Depois continuei minha caminhada, queria passear ainda pela Speicherstadt, que são as duas ilhas entre a HafenCity e o centro da cidade. Antes de chegar nas ilhas, parei na frente de uma gigante máquina, uma escavadeira montada numa plataforma. Para dar uma noção de tamanho, o operador da máquina precisava subir uma escada normal com uns 4 metros de altura para chegar na cabine de controle. A máquina estava escavando o fundo do canal, impressionante de ver ela funcionando.

Na Speicherstadt há diversos prédios, todos possuem um gancho para içar as mercadorias que chegam ou de carro, ou de navio. Só vi mercadorias chegando em carros e containers. E bastante engraçado de ver uma mercadoria sendo içada, apesar que hoje em dia eles usam motores para levantar as cargas, o resto do trabalho continua sendo todo manual e bastante árduo. Os prédios também são bonitos, todos em tijolos vermelhos, com alguns desenhos em preto. Depois dessa grande volta, resolvi que era hora de tomar um café e descongelar um pouco, ainda preciso refazer minha mala, amanhã estarei em Berlin! Ah, já fazem 52 dias que estou desse lado da poça d’água, o tempo passa rápido!

Pra variar um pouco: Museus!

Dediquei meu domingo, após uma preguiça fenômenal para acordar, a visitar os outros dois museus importantes da cidade, a Deichtorhalle e o Kunst und Gewerbe Museum. O primeiro não é bem um museu só, há dois museus no local, um de arte contemporânea e outro de fotografia. Fui nesse museu primeiro, era o último dia de uma mostra do Georg Baselitz, importante pintor alemão. A exposição era sobre imagens russas, quadros que foram pintados com motivos russos. Já tinha visto alguns trabalhos dele em outros museus, mas achei bem legal ver uma quantidade grande junto. Os trabalhos dele tem uma certa ironia (ou talvez não seja esse o adjetivo correto), todos os trabalhos são expostos de cabeça para baixo. Ele tem ótimas pinturas, alias, tenho visto tanta pintura contemporânea, muito bom! Na exposição também havia dois filmes sobre o artista, vi um pedaço de cada, era bem complicado de entender! Várias palavras que eu não fazia idéia do que poderiam significar.

Saí de lá e entrei na galeria de fotografia, estava tendo duas exposições simultâneas, uma com fotos de jovens artistas alemães e outra chamada American Beauties. Faziam parte da mostra American Beauties os seguintes fotografos: Larry Clark, Nan Goldin, David Hockney, Lisette Model, Karl Struss e Wim Wenders. As fotos mais fortes da mostra são obviamente do Larry Clark e da Nan Goldin. Um dos trabalhos da Nan é uma série de slides com a música All by myself, digamos que assistir esse trabalho seja um soco direto no estômago. Já tinha visto alguns trabalhos dela antes, mas esse realmente me impressionou.

Pra completar a séria de fotos fortes, o trabalho do Larry Clark, com título Tulsa, mostrava uma série de fotos de jovens de Tulsa. Na maioria das fotos aparecem os jovens se drogando ou com um tiro na perta ou ainda um bebê morto, é forte pra burro! Descobri depois que esse fotografo dirigiu o filme Kids, que pra quem não lembra é sobre adolescentes drogados e aids. As outras fotos eram bem menos violentas, mas não por isso piores. Adorei as fotos do Wim Wenders!

Quanto aos novos fotografos alemães posso dizer que havia alguns bons trabalhos. Vários eram mais uma instalação do que fotografia, mas não por isso menos interessantes. Gostei do que eu vi, mas acho que pelo fato de estar exposto junto com todas essas outras fotos fortes, não consegui apreciar muito bem alguns trabalhos. Se alguem quiser, peguei um pequeno catálogo da exposição, mas está em alemão.

Completei meu dia indo no Kunst und Gewerbe Museum. Estava com receios se ia gostar desse museu e o que teria de legal para ver dentro dele. Lá eu descobri uma das maiores coleções de instrumentos tipo piano, quer dizer, os bisavós do piano atual. Na sala onde estão todos esses pianos havia uma peça-concerto, dois músicos e um narrador. Esqueci de pegar o programa, mas era voltado para crianças, lembro que tinha uma música de um compositor francês com letra do comediante alemão Loriot. As crianças estavam se divertindo bastante, e eu só entendendo metade das falas!

No resto do museu havia tudo que é tipo de coisas, mas sempre com bastante enfase em design. Num dos andares havia uma parte sobre o modernismo, onde estavam expostas várias cadeiras do Le Corbusier, Gropius, etc. Em algumas salas do museu foram remontados escritórios, salas de música, de jantar, etc como elas eram em alguma época. Interessante de ver como os ambientes foram se modificando. No último andar do museu havia uma exposição dos ganhadores do prêmio de publicidade de Cannes, ví ótimos comerciais. Os mais fortes eram os contra o cigarro, da anistia internacional e de agencias protetoras do meio ambiente.

O mais engraçado que eu vi, foi um argentino para esponjas Scott Bright:
Almoço em familia com uma convidada nariguda. A convidada diz que semana que vêm vai fazer a cirurgia e é interrompida pelo homem que está sentando ao seu lado. Ele explica nos mínimos detalhes como é simples a cirurgia, só dois cortes, levantam a pele do nariz, raspam o osso e tá pronto. Dai ela continua: “Vou retirar as amidalas!”. Acaba a propaganda dizendo que só as esponjas conseguem limpar tudo, menos essa pequena gafe.

Kunsthalle

Segundo dia em Hamburg, exausto de tanto caminhar no dia anterior, optei por um dia ‘light’, visitar a Kunsthalle. Achei que seria um museu como muitos outros que eu fui, que dá para olhar toda a coleção (meio por cima) em três horas, mas nada disso, fiquei mais de cinco horas dentro do museu.

A Kunsthalle é formada por dois museus, um com arte até o século 19 e o outro com arte atual. Na parte de arte “antiga” há ótimos pintores como Rembrandt, Tiepolo, Rubens, Caspar David Friedrich, Manet, Coubert, Monet, etc. Grande parte desses pintores, especialmente os franceses, eu já tinha visto bastante na frança, então a coleção deles não me impressionou muito. Mas os trabalhos de artistas alemães como o Caspar Friedrich foi realmente bom de ver, ele tem pinturas ótimas! Aqui nesse museu que está aquela famosa pintura de uma pessoa de costas olhando uma paisagem com neblina (Wanderer über dem Nebelmeer). A parte do museu com os expressionistas alemães também é ótima com diversos Kirchner e August Macke. Há no museu também uma sala de Munch!!

Depois de olhar toda a parte de arte “antiga”, fiz uma pequena pausa para o almoço no restaurante do museu (que dizem ser bem famoso), mas não achei as mil maravilhas o meu prato. Do restaurante tem se acesso ao museu de arte atual. A entrada já é espetacular, uma enorme linha da Jenny Holzer que segue toda a escada até o subsolo. Para quem não conhece o trabalho dela, ela usa panéis de LED onde passam diversas frases, algumas bastantes intimas sobre si própria, é muito legal!

No subsolo há três ou quatro trabalhos do Richard Serra, dois ele fez no próprio local. Há duas salas com trabalhos do Andy Wahrol, com algumas fotos muito boas. Também há trabalhos do Beuys, Bacon, Cy Twombly, Robert Morris, etc. Todos esses trabalhos são muito bons, e requerem um bom tanto de tempo para olha-los. Um trabalho que eu achei divertido, e que também foi feito no local, é uma máquina de gerar estalagitites e estalagimites (escrevi certo?). Ela recolhe água da chuva, passa por uma série de plantas para tornar a água rica em cálcio e depois há uma pingadeira. Na parte de cima já formou uns 15cm de estalagitite, na parte de baixo ainda não há quase nada. Fazem 10 anos que o trabalho está no local.

Subindo os três andares do museu, passei por outros vários trabalhos. Havia um grande trabalho do The Atlas Group, que estava na bienal de Porto Alegre com o vídeo do pôr-do-sol. Vi mais umas fotos da Candida Höfer, já tinha visto uma exposição dela em Barcelona, muito boas as fotos dela. Um trabalho que eu adorei foi o Gotham Handbook da Sophie Calle, ela pediu um texto para o Paul Auster (escritor) e disse que ia seguir o que estava escrito durante alguns dias. O texto é um guia de como se dar bem com as pessoas em NYC, ela segue a risco e documenta todo o processo. Muito legal!

Para acabar meu dia no museu, vi dois vídeos. Um da Rebecca Horn, onde ela corta o seu próprio cabelo, com uma certa cara de desespero, ótimo vídeo. O outro foi da Lenka Clayton, com o vídeo “Qaeda Quality Question Quickly Quickly Quiet”. No vídeo ela pega o discurso de 2002 que o Bush fez para o congresso (tem um nome esse discurso anual, mas não lembro) e organiza as palavras em ordem alfabética. É incrível a quantidade de vezes que ele fala terror, terrorism, etc.

Exausto do meu dia, passei na Hbf e comprei minha passagem para Berlin. Aproveitei para ficar um pouco na internet, que não tinha ninguém online, todos no carnaval (eta folga!). Acertei minha ida até München, dia 18 chego lá. E chega de escrever.

Hamburg, ou o vento que não para nunca

Cheguei em Hamburg, a cidade que o John tanto fala. A cidade é muito legal, é uma cidade grande, com prédios altos (para o padrão europeu) no centro da cidade. Pra variar fui fazer minha volta de reconhecimento da cidade, li no meu guia sobre os prédios “históricos” da cidade, as ruas mais importantes, etc. Meu hostel fica muito bem localizado a poucas quadras da ferroviária e da maioria dos museus. Antes de eu contar sobre o passeio do dia, vou contar sobre o hostel…

Fiz checkin no hostel com a pessoa mais atrapalhada da face da terra. A pobre criatura não sabia usar a máquina do cartão de crédito, demorou um bom tempo, passando o cartão de tudo quanto era jeito até conseguir fazer funcionar. Mas ela errou o valor, paguei 45 centavos a menos, fiquei quieto já que a minha reserva online estava um pouco equivocada (tinha pedido roupa de cama, cheguei aqui e não tinha; queria um café da manhã para o primeiro dia, etc). Minha sorte foi que não havia ninguém no meu quarto! Como estava cansado de arrastar mala, queria comer um snack qualquer, perguntei no bar do hostel e a resposta foi: “não há nada para comer, mas você pode fazer sua própria comida…”. Não entrei no mérito de não ter nenhum ingrediente para cozinhar… pedi um 7-Up e fui dormir, morrendo de fome.

Bom, voltando ao meu dia de passeio. Saí meio sem rumo, mas com um mapa no bolso e idéias do que eu queria ver. Saíndo do hostel passei por um dos museus (de arte contemporânea e de fotografia), e logo vi um prédio interessante, em forma de triangulo com a fachada de vidro e alguns pátios internos, não sei quem é o arquiteto, mas gostei do prédio. Quase na frente dele está a Chilehaus, um enorme prédio de um antigo arquiteto hamburgues, no meu guia tinha mais dados mas fiquei com preguiça de escrever. Tomei um café logo que achei uma cafeteria, descobri que no almoço eles tinham massa por apenas 3.90 euros, obviamente eu iria voltar ali para almoçar.

Caminhando mais um tanto entrei na St. Petrikirche, onde fui recebi por um simpático senhor, que me mostrou toda a igreja e explicou todos os trabalhos que haviam ali. A igreja era originalmente católica, mas tornou-se protestante em alguma data que eu não lembro. As igrejas protestantes são bem diferentes das igrejas católicas, não há quase nenhum adorno nas paredes. Os poucos que haviam eram da antiga igreja católica. Essa igreja foi a única que sobreviveu quase que intacta durante a guerra, junto com a Rathaus (prefeitura) e mais um prédio que eu não lembro agora.

Falando em guerra, hoje descobri que algo em torno de 70% da cidade virou ruinas durante a guerra. Vários prédios “históricos” tem no máximo 60 anos. Essa informação veio do memorial que existe no local da antiga igreja de St. Nikolaikirche, da igreja só sobrou a torre – que era o ponto mais alto da cidade até então e usado como referência para os bombardeios da cidade. De cima da torre avista-se quase toda a cidade, o problema é aguentar o vento, que junto com o frio, te congelam em poucos minutos.

Depois do meu passeio por igrejas e suas ruinas, caminhei até a margem do Elbe (qual o nome desse rio em português?). Caminhei um bom tanto pela margem do rio, até chegar ao Fischermarkt, onde todas as manhãs há um grande mercado de peixes. A essa altura estava cansado e resolvi voltar, mas para isso peguei uma rua paralela, para ver coisas novas. Não imaginava que tinha andado tanto, demorei um bocado para chegar no hostel. Sim, eu devia ter pego um metrô, mas andar também é bom!

Ah, agora tenho colegas no quarto, duas russas! Uma loira e uma ruiva, impossível tentar decifrar o que elas falam. Ainda há três camas vazias, espero que continue assim até terça. Esse post já está enorme e eu poderia escrever mais, mas vou acabar por aqui.