Berlin / Dresden

Hora de mudar de cidade após 9 divertidos dias. Último café da manhã com o Hartmut, mais algumas piadas durante o café. Foi ótimo estar aqui, tive que realmente falar alemão dia e noite. Me impressionei que eu consigo me expressar na maior parte dos assuntos, as vezes faltam palavras, verbos ou adjetivos, mas consigo manter um dialogo sem apelar pro inglês! Depois do café arrumei minhas malas – sim, agora no plural, comprei uma mala nova para os livros. O Hartmut brincou que eu devia fretar um container e despachar tudo de navio… Talvez eu tenha comprado livros demais, mas fazer o que se eles tem ótimas promoções?!

Quando eu terminei de empacotar já estava quase na hora de partir, fomos de carro até a Hauptbahnhof de Berlin, mas acabamos chegando cedo, aproveitamos para tomar um café. Me despedi do Hartmut, mas acho que não consegui agradecer ele o bastante.

De Berlin a Dresden são duas horas de viagem no EC (Eurocity), meu trem tinha como destino final Viena, passando antes por Praga e outras cidades. O único problema foi que o trem era tcheco e os vagões estavam um pouco detonados. Na minha cabine sentou um senhor. Depois que eu tinha lido um bom tanto do meu guia da alemanha em inglês ele me perguntou em inglês de onde eu era e etc, respondi em alemão e começamos a conversas. Ele era professor de francês numa escola, mas agora só dava aula particulares de espanhol e também sabia latin e grego, um verdadeiro poliglota! Ele disse que eu falo alemão muito bem, apesar de eu particularmente não achar isso.

Em Dresden desci na primeira parada da cidade, na Bahnhof Neustadt, meu hostel ficava à três quadras dali. Arrastar minhas malas até o hostel não foi muito divertido, ainda não tinha achado um modo prático pra carregar tanta coisa. Meu hostel era bom, fiz uma boa escolha, só não tinha internet nele. Mas tinha vários internet cafés nas redondezas do hostel. Depois de me instalar, saí para um reconhecimento da cidade, já estava um pouco escuro, mas consegui ter uma idéia do que eu teria para andar no dia seguinte. Voltei para o hostel cedo e apaguei na cama, estava exausto da minha viagem.

Ah, by the way, hoje foi dia dos namorados aqui na alemanha…

Último dia de Berlin

Minha estada em Berlin estava acabando, o Hartmut sugeriu irmos até Potsdam novamente visitar o bairro holandês, a colônia russa e o castelo Cecilienhof. Achei um ótimo plano para fazer pela manhã, pretendia ir a tarde no Pergamon Museum. Potsdam, como eu já disse, fica a poucos minutos da casa do Hartmut, o bairro holandês é logo abaixo do centro histórico da cidade. No bairro todos os prédio são de tijolo vermelho, típico da arquitetura holandesa, com janelas brancas e verdes. Só demos uma volta a pé pela quadra, a casa museu que há ali estava fechada.

Seguimos até a colônia russa, que foi fundada em 1780 ou algo assim, para abrigar alguns russos que vieram para cidade construir algo para o rei. Não consegui entender toda a história que o Hartmut me contou. Umas oito casas formam a colônia junto com enormes jardins, usados como hortas. Todas as casas são de madeira, com impressionantes detalhes recortados na fachada. No morro próximo está uma minúscula igreja ortodoxa e incrivelmente bastante freqüêntada, acho que sobraram muitos russos em Potsdam, que fazia parte da DDR. A igreja deve ser em planta um quadrado de não mais de 5 metros de lado, é realmente pequena e todos ficam de pé, o que é bem diferente da igreja católica normal.

Andamos mais um pouco e chegamos ao castelos Cecilienhof, famoso por ter sediado as conferências no final da guerra. Ali se reuniram os três chefes de estado vencedores, Churchill, Truman e Stalin. Potsdam apesar de quase fazer parte dde Berlin foi pouco afetada pelos bombardeios aliados, esse foi um dos motivos para utilizarem a cidade como sede das conferências. Grande parte das antigas casas continuam lá, mas estão bastante detonadas pelos 40 anos de DDR e falta de manutenção. Almoçamos no restaurante que há no castelo, talvez eu tenha sentado na cadeira do Stalin, mas não posso afirmar nada. A comida era ótima, comi um prato com carne, cebola, mostarda e obviamente batatas. Depois do almoço demos uma volta pelo exterior do castelo, havia uma turma de estudantes espanhois tendo uma aula sobre o final da segunda guerra e os acontecimentos que se passaram naquele castelo.

Como eu queria ir até o Pergamon Museum pedia para o Hartmut me deixar na estação do S-Bahn, para ele não precisar atravessar a cidade para me levar. Antes de chegarmos na estação passamos por Babelsberg, outra cidade na divisa de Berlin, que possui as enormes casas que sediaram todos os chefes de estado no final da guerra. Há algumas histórias engraçadas sobre as casas, mas não lembro nenhuma em particular agora. Depois dessa volta cheguei na estação de Wannsee e peguei o S-Bahn até a Museum Insel.

Quando me falavam que eu devia ir no Pergamon Museum eu não levava muito a sério. Não sou muito fã de objetos antigos, e não sei muito sobre a história deles (sejam romanos, gregos, egípicios, etc). Cheguei no museu com um pé atrás, esperando um gigante atrolhamento de objetos e esculturas. Mas nada disso aconteceu! O museu não era atrolhado e a qualidade das coisas expostas era único! Tive que revisar meu conceito sobre a pirataria dos ingleses, os alemães também cataram tudo o que interessava a eles nos outros países. A enorme seção do museu com artefactos da Babilônia é incrível! Pra mim esse foi o melhor museu com objetos antigos, valeu a visita!

Como bom turísta, resolvi me despedir da Potsdamer Platz e obviamente achei que era sensato caminhar até lá. Só esqueci o detalhe que são quase 40 minutos de caminhada! Mas sem problemas, encarei a caminhada e dei tchau a Berlin. Antes de pegar o S-Bahn para voltar para casa, achei uma loja com quebra cabeças de madeira, fiquei na loja mais de meia hora, mas resolvi dois dos jogos. Acho que foi um ótimo jeito de dizer adeus a cidade, quero voltar para cá em breve, há muito ainda para ser explorado!

Fotos

Como bom índio, quer dizer, turísta, fiz mais um longe dia de caminhadas. O Hartmut me deixou na estação de Wannsee e em poucos minutos estava no centro de Berlin. A Lu havia me recomendado duas galerias de fotografia a Camera Works e C/O Berlin, incluí as duas no meu roteiro para o dia assim como o prédio do Álvaro Siza aqui em Berlin. Minha primeira parada foi na Camera Works. Uma galeria comercial de fotos, situada nos fundos de um antigo prédio (pelo menos aparenta ser antigo!). Vi a exposição do fotografo alemão Jim Rakete. Ele fotografa na maioria das vezes pessoas famosas em poses cotidianas e nada preparadas. Fiquei com vontade de comprar o livro da exposição mas era muito caro, assim como as fotos dele. No livro ele comenta sobre como ele fez as fotos, todas de longa exposição com 1/8 de segundo, numa camera Linhof gigantesca. As fotos são ótimas!

Por indicação do Hartmut, caminhei um pouco pelo bairro, passei em algumas livrarias e acabei entrando na KaDeWe ou Kaufhaus des Westens, enorme centro comercial com 6 andares e tudo quanto é tipo de coisas a venda. No último andar há uma seção só de comidas, com frutas “exóticas” – leia-se frutas tropicais, mas não achei guaraná a venda! Devia ter reclamado… Vale a pena dar uma passeada pelos 6 andares da loja.

Peguei o U-Bahn na frente da KaDeWe e fui até a estação próxima ao prédio do Siza, no outro lado da cidade mas ainda dentro da área ocidental. O prédio é bastante simples, chamando mais a atenção pela fachada da esquina, que é curva. O resto do prédio é bastante simétrico, com janelas igualmente espalhadas. Mas em uma das portas o ritmo das janelas é quebrado, com as janelas do que eu suponho ser a escada do prédio. O prédio fica a uma quadra do Spree e também da antiga divisa entre as duas alemanhas.

Atravessando a ponte, chega-se no que hoje em dia é a East Side Gallery, uma grande extensão do antigo muro. Esse pedaço do muro é conservado como memória do que foi a separação. Nele há tudo quanto é tipo de desenhos. Se esse pequeno pedaço já cria um certo pavor do que possa ter sido a separação, imagino que a sensação de ver o muro inteiro seja muito pior, mas é bom ver isso para lembrarmos que segregar povos é uma péssima idéia. Depois de caminhar toda a extensão do muro, cheguei na Ostbahnhof, que foi totalmente reformada e modernizada. Aproveitei para comprar minha passagem para Dresden e depois peguei o S-Bahn.

Desci do S-Bahn na Friedrich Straße, caminhei um pouco até chegar a Oranienburger Tor e achar meu caminho para a C/O Berlin. A C/O Berlin é um espaço para promover artes e fotografia, possui um grande espaço expositivo e alguns ateliers. A exposição em cartaz era do fotografo inglês Martin Parr. A mostra era uma retrospectiva do trabalho dele, que não faz fotos somente artísticas mas também trabalha com fotojornalismo. A maioria das fotos eram coloridas, mas com uma sacada em relação as cores ótima! Uma das fotos mais engraçadas era a foto de um turista (imagino eu) com casaco vermelho, azul e amarelo fotografando um jardim vermelho, azul e amarelo!

Entre as fotografias do Parr havia uma série sobre casais entediados, todas tiradas naquele momento que cada um olha para um lado e não sabe o que falar. Gostei muito das fotos, mas não havia nenhum livro barato sobre a exposição. Numa pequena sala havia uma outra mostra, com fotos de jovens fotografos feitas na Berlinale. Foi bastante divertido ver essas fotos, pois a maioria era do dia anterior – o dia que eu estava lá assistindo e brincando de tirar fotos. Não apareci em nenhuma delas, mas reconheci todos os instântes das fotos.

Para terminar meu dia fui até novamente até a Potsdamer Platz para acessar a internet (eta vício!). Estava um frio siberiano, pois ventava muito. Depois de congelar acessando a internet, entrei numa Starbucks para tomar um cappuccino e descongelar um pouco antes de voltar para casa.

Caminhada

Cansado de tantos museus, resolvi fazer um pausa no dia de hoje, escolhi fazer uma grande caminhada e o Hartmut também não podia me acompanhar hoje, tinha outros assuntos para tratar. Não me perguntem o quanto eu andei, só posso dizer que foi muito mais do que eu imaginava. Peguei o S-Bahn e desci na estação do Zoo, do lado da estação achei uma mala por 5€, vai ficar mais fácil carregar meus 16kg de livros!

Quase na frente da estação está a Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche, antiga igreja que foi quase que totalmente destruída durante a guerra. Uma torre da igreja sobrou e é mantida como ruína até hoje, ao lado foi criado uma nova torre e uma igreja em forma de octagono. Toda a igreja é revestida com vitral azul, criando um pesado clima no interior da igreja. Na continuação do meu caminho, passaria pelo meio do bairro das embaixadas, mas como o presidente (ou whatever) de israel estava na alemanha nesse dia, todas as ruas próximas da embaixada estavam fechadas e com um forte esquema policial. Tive que contornar as embaixadas para chegar no Tiergarten, mas no caminho passei na frente da embaixada do méxico e dos países nórdicos.

O Tiergarten, como eu expliquei anteriormente, é um enorme parque no meio da cidade. Quase no meio do parque está o Siegessäule, uma enorme torre comemorativa da vitória da Prussia sobre diversos países europeus. Dá para subir na torre, mas não estava com vontade de subir escadas. Continuei minha caminhada pelo Tiergarten em direção ao Regierungsviertel, onde estão quase todos os prédios do governo alemão. Há ótimos novos prédios construidos depois que ficou decidido que a capital da alemanha reunificada seria Berlin. O prédio mais famoso é o Reichstage, reformado pelo arquiteto inglês Norman Foster, que possuiu uma enorme aboboda de vidro (recomendo a visita e é de graça, só tem que passar por uma super revista). Mas há outros dois prédios interessantes ao lado, um é do arquiteto alemão Axel Schultes (que fez o museu de Bonn).

Quase ao lado do Reichstage está a Brandenburger Tor, enorme porta que se abre para a Unter de Linden. Durante o período da DDR ninguém tinha acesso a este lugar, o muro passava exatamente ali. Do ocidente só se avistava as costas da porta. Andando uma quadra para o sul está o monumento ou memorial para os judeus mortos na guerra, mas pode ser visto como um grande jogo de curva de nível. No subsolo há um pequeno museu, que acabei não visitando, era segunda e estava fechado. Não acho que os grandes blocos de concreto escuro que formam esse lugar passem alguma idéia de “vamos pensar no que aconteceu”, mas acho eles bonitos como forma.

Andando mais duas quadras para o sul e chegamos novamente na Potsdamer Platz. Já falei sobre ela anteriormente, mas acho que esqueci de menciona que está acontecendo a Berlinale, importante festival de filmes. Não preciso dizer que o local estava semi-lotado de fãs, artistas, jornalistas, paparazzis. Na quadra mais ao sul da ‘praça’ há um prédio do Richard Rogers, mas não achei muito genial, tirando o terraço da parte de apartamentos do prédio. Como bom turista fui conhecer um shopping alemão e é igual a qualquer shopping.

No inicio da noite havia a estréia de um filme alemão na Berlinale, pude acompanhar toda a movimentação das estrelas chegando ao tapete vermelho do cinema principal do festival. Foram diversos atores e pessoas famosas da alemanha, mas como não conhecia ninguém, fiquei lá assistindo e brincando de paparazzi. Devia ter ido na noite anterior, teria encontrado a Penelope Cruz!! Mas, azar, foi divertido igual estar ali. Havia uma senhora na minha frente super animada, berrava para chamar todos os atores para perto do público. Diversas vezes ela conseguiu fazer com que um viesse dar um autógrafo para ela, eu ria as vezes das coisas que ela falava! Com minha brincadeira de paparazzi fiz mais de 100 fotos na meia hora que fiquei por ali, depois peguei o S-Bahn e voltei para casa.

Berggruen Museum / Jüdisches Museum

Vocês já perceberam que eu adoro ir a museus, então hoje planejei o dia para ver dois museus o Berggruen Museum e o Jüdisches Museum. Fomos primeiro no Berggruen, que fica em frente ao castelo de Charlottenburg. Esse museu é formado pela coleção de um ex-galerista alemão e formado basicamente por obras do Picasso, Matisse e Klee. A coleção de obras desses três artistas é impressionante, há trabalhos de quase todas as fases deles. Adorei ver as colagens do Matisse e as aquarelas do Klee. Picasso eu não sou muito fã, mas tinha bons trabalhos. Também havia alguns trabalhos do Braque e Giacometti.

Olhar os três andares do museu não demora muito, então aproveitamos o sol para dar uma volta pelos jardins do castelo. Os jardins hoje em dia formam um parque, que antigamente era maior, no final da guerra um pedaço do jardim foi loteado. Há vários prédios antigos para se visitar nos jardins, como o malsoleu da rainha Louise ou ainda os diversos lagos com ligação ao rio. Como todo rei é excêntrico ele mandou construir esses acessos ao rio para poder vir de barco dos seus outros castelos!

No final da volta pelo castelo já era hora do almoço, fomos num restaurante italiano que há quase em frente ao castelo. Comi uma ótima lasanha! Depois do almoço eu queria ver o Jüdeisches Museum, então o Hartmut me levou até lá. O prédio do museu, projetado pelo arquiteto Daniel Libeskind, com sua arquitetura descontrutisva, é um grande labirinto todo recortado. Olhando em planta o prédio lembra um raio, mas por dentro perdemos a noção de onde estamos. Uma das coisas interessantes do prédio são os enormes vazios, internos e externos, que o arquiteto deixou de propósito. O espaço de exposição é bastante confuso, se não fossem as setas indicando o caminho não teria visto todo o museu. A exposição do museu deixa um pouco a desejar, parece mostrar só o que são os judeus, o que eles fizeram, por que eles não gostam de se misturar, etc. Talvez um judeu ache ótimo o museu, mas não consegui gostar muito. Lá pela metade do museu o Hartmut achou melhor ir para casa, pois ele já estava cansado. Terminei de ver o prédio sozinho e depois aproveitei o internet café que havia ao lado do museu para atualizar a família sobre a minha estada em Berlin.